quarta-feira, 17 de setembro de 2014

TV CAATINGA GRAVA PROGRAMA EM PAULO AFONSO



 A TV CAATINGA (UNIVASF) GRAVA EM PAULO AFONSO PROGRAMA SOBRE OS ROTEIROS TURÍSTICOS.
A EQUIPE DA UNIVASF FICOU ALGUNS DIAS EM PAULO AFONSO GRAVANDO UM PROGRAMA SOBRE O TURISMO.
OS ESPORTES RADICAIS, CATAMARÃ, ROTEIROS DO CANGAÇO E MUSEU CASA DE MARIA BONITA FORAM PONTOS VISITADOS.
MAIS UM TRABALHO QUE DIVULGA A REGIÃO E NOSSOS ATRATIVOS TURÍSTICOS E HISTÓRICOS.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

MUSEU CASA DE MARIA BONITA RECEBE SOBRINHAS DA RAINHA DO CANGAÇO


   
     Domingo, dia 14 de setembro de 2014, o Museu Casa de Maria Bonita recebeu a visita de algumas sobrinhas da rainha do Cangaço.
Nora e o marido João vieram de São Paulo onde residem há 60 anos. Nora é filha de Nanzinha irmã de Maria Bonita.
De São Paulo também veio a sobrinha Sula.
A visitação foi realizada depois que o Museu sofreu a ação de vândalos que o assaltaram. Houve uma revitalização com a entrega de um baú antigo, fotos e mais algumas peças da época.
o Museu encontra-se aberto para visitação.
para agendar as visitas: (João de Sousa Lima) 75-8807-4138 ou 9101-2501.  e ainda a ATENDTUR ( Eduardo Cruz: 8865-2432)

João, Sula, tatiane, Nora e João

sobrinhas da Rainha do Cangaço

João, Milton (sobrinho de Maria Bonita)

João e Milton

Museu Casa de Maria Bonita

Nora (filha de Nanzinha)

domingo, 14 de setembro de 2014

BOTIJAS, TESOUROS DO NORDESTE. - por João de Sousa Lima



BOTIJAS, TESOUROS DO NORDESTE.

 
As diversas histórias de Botijas transformaram-se em lendas, com seus relatos sempre acrescentados de uma pitada de aventura e do sobrenatural.
O Sertão Nordestino contém inúmeros relatos sobre as Botijas, tesouros enterrados em oitões de fazendas, nos batentes dos casebres, velhas árvores centenárias, entre pedras e lajedos.
Verdadeiros tesouros do passado, quando os sertanejos escondiam suas finanças e seus ouros em cabaças, potes de barro ou caixotes de madeiras e depois os enterravam em pontos estratégicos, tendo um alvo de referência de fácil acesso para o proprietário.
Dentre todos os pontos de relatos envolvendo esses tesouros escondidos, nenhum tem mais registros do que a imensidão do Raso da Catarina. Desde os relatos dos fugitivos da guerra de Canudos, passando pelos índios Pankararé, até chegar aos relatos deixados pelos cangaceiros, que além de ouro e moedas deixaram enterrados ou escondidos em troncos de árvores, munições e armas. A Cangaceira Dadá, de Corisco, Passarinho, Azulão, Gato, Inacinha, são alguns cangaceiros que deixaram materiais enterrados ou escondidos no Raso da Catarina. Muitos desses sendo encontrados por moradores da localidade. Dentre os fatos mais conhecidos podemos citar dona Marli Reis (sobrinha do famoso coronel Petronilio de Alcântara Reis), proprietária de uma pousada/restaurante em Chorrochó, Bahia. Ela sonhou com o fogo consumindo uma das paredes da igreja construída pelo Antonio Conselheiro, ao amanhecer se dirigiu pra igreja e quando tocou uma das paredes, exatamente a parede que ela sonhou em chamas, caiu um pedaço do reboco e de dentro da parede, junto com os escombros, caíram várias correntes e anéis de ouro, peças até hoje guardadas por ela como verdadeiro tesouro.
Um dos índios da tribo Pankararé, residente da reserva Brejo do Burgo, desmatava um terreno, nas proximidades da Baixa do Chico. Com um afiado machado começou a cortar uma velha árvore morta, entre os cortantes golpes da afiada lâmina, um tilintar, um barulho diferente do toque do machado com a madeira, a curiosidade aumentou, as machadadas ficaram mais rápidas, no oco da madeira uma velha ferragem de um mosquetão, arma usada pelos cangaceiros. Ferragem recolhida, árvore cortada, hora de colocar fogo no resto do tronco; Minutos depois do fogo ateado, tiros ecoaram e eles correram em busca de proteção entre pedras, muitos disparos, momentos angustiantes, vários minutos de espera até queimar o último projétil, várias balas deflagradas. Por falta de atenção a munição que estava também na árvore não foi avistada sendo consumida pelo fogo. Tempos depois a ferragem do mosquetão me foi presenteada.
Em Paulo Afonso, a estrada que dava acesso a Salvador, saindo de Santo Antonio da Glória, cruzava a nossa famosa Rua da Frente, nas proximidades da estrada, tempos depois, surgiu a cidade, entre o emaranhado de ruas, uma das vias de destaque: Rua do Coqueiro. Nessa rua, em outubro de 2010, o pedreiro Sabino começou um trabalho de reforma e ampliação de uma residência, traços marcados, linhas esticadas, ajudantes à postos, começam a escavação. Sabino maneja agilmente a ferramenta, buracos cruzam uma parte do quintal, entre golpes da picareta, um som diferente, Sabino observa uma velha cabaça partida por suas pancadas. A cabaça é cuidadosamente recolhida, dentro dela várias moedas de prata e cobre. Valores deixados no passado, relíquias colhidas no presente. Mais um tesouro desenterrado. Aproximadamente seis quilos e meio de moedas, tesouros da história, segredos encravados na terra, descobertas recentes, memórias de um passado ainda latente, registros de um tempo, datas marcadas: 1880, 1890, 1900, 1910, 1920, 1930, esfinges e gravuras de rostos famosos, Botijas, tesouros que atravessaram o tempo, nas escondidas fendas da terra, fatos registrados no presente, tesouros enigmáticos colhidos e que serão eternizados, parte da nossa história passada, reflexo de um tempo, memória de uma época, traços de uma geração, perpetuação de fatos, histórias e memórias de um povo e de uma cultura. O tempo em sua passagem registra atos, ações, fatos e emoções.

João de Sousa Lima
Membro da ALPA – Academia de Letras de Paulo Afonso.

Paulo Afonso, 13 de setembro de 2014

sábado, 13 de setembro de 2014

PAULO AFONSO E OS ROTEIROS DO CANGAÇO EM REPORTAGEM NACIONAL


    Trilhas do cangaço: um lugar onde a lei tarda a chegar
JOÃO PEDRO PITOMBO, EM PAULO AFONSO (BA)
Nas estradas de barro que cortam a zona rural de Paulo Afonso, no norte da Bahia, as peças surgem como num quebra-cabeça: uma montanha, uma árvore, um casarão destruído e uma casinha de taipa que resiste bravamente à ação do tempo.
Cada peça conta uma história, num grande museu a céu aberto de um movimento que marcou o Nordeste brasileiro nos anos 1920 e 1930: o cangaço.
Terra de Maria Bonita –mulher de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o mais famoso de todos os cangaceiros–, Paulo Afonso tenta despontar como rota do turismo histórico no Brasil.
Ao lado do historiador João de Sousa Lima, com seis livros publicados sobre o cangaço, o blog percorreu um dos cinco roteiros do cangaço numa tarde nublada de agosto.
O destino era o Museu Casa de Maria Bonita, instalado na casa de taipa onde nasceu a cangaceira.
Mais do que o museu, contudo, o trajeto de 37 km por uma estrada de barro é o grande chamariz do roteiro. A rota segue por áreas próximas ao Raso da Catarina –região conhecida por ser uma das áreas mais inóspitas do semiárido nordestino e, por isso, estratégica para os cangaceiros.
É nesse roteiro que está a casa e a capela que pertenciam a Generosa Gomes de Sá – uma poderosa e rica fazendeira, dona de um dos maiores rebanhos de caprinos da região no início do século 20.
Assim como outros grandes fazendeiros da região, era uma “coiteira”: dava abrigo a cangaceiros da região. Na sua casa, Lampião deu vários bailes, na época já conhecidos como “forrós”.
Foi lá que Lampião pôs para correr um sobrinho de dona Generosa, conhecido como Louro, que achou por bem fazer graça sobre os forrós do cangaceiro.
Para voltar à cidade, teve de ir a Juazeiro do Norte (CE) pedir ajuda a Padre Cícero –sacerdote que faz parte do imaginário nordestino e que foi padrinho de Lampião.
Com um bilhete do padre, voltou para casa. Mas recebeu o recado do cangaceiro: na próxima vez, nem um recado de Jesus o salvaria.
Em frente à casa de Generosa, está a cruz que marca o local onde foi enterrado o soldado Zé Pretinho. Em 1931, ele foi amarrado numa árvore próxima e morto por companheiros da polícia, que ali brincaram de tiro ao alvo.
“Ele estava com os policiais num esconderijo e saiu para buscar comida. Horas depois, Lampião chegou ao local e matou 16 soldados. Zé Pretinho acabou morrendo como delator”, conta o historiador João de Sousa Lima.
Nesse combate com a polícia, os cangaceiros tiveram uma importante baixa: Ezequiel, o irmão mais novo de Lampião.
Quilômetros depois, no povoado de Riacho, desponta no horizonte a Serra do Umbuzeiro, local onde Lampião e outros cangaceiros se escondiam em cavernas para fugir de emboscadas da polícia.
CASA E MUSEU
Ao fim da rota, no povoado Malhada do Caiçara, está a casa de onde Maria Bonita saiu para ser a primeira mulher a integrar o cangaço. Com três cômodos, tem objetos e fotos da época e é guardada até hoje por descendentes da mulher de Lampião.
Por ironia, o museu que conta um dos capítulos mais importantes do banditismo no Brasil foi assaltado um dia antes da nossa visita.
Dez fotos da época foram roubadas. Os vizinhos sabem quem fez o assalto, mas ninguém foi preso, nem os retratos recuperados.
Quase um século depois do auge do cangaço, a lei ainda tarda a chegar aos caminhos de Maria Bonita e Lampião.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O BAÚ DE DONA BALÓ, A MÃE DA CANGACEIRA LÍDIA


     O BAÚ DE DONA BALÓ, A MÃE DA CANGACEIRA LÍDIA



            O povoado Salgadinho, em Paulo Afonso, Bahia, situado nas margens da exuberante Serra do Padre, rendeu-se aos encantos sublimes da mais deslumbrante flor germinada em seus campos: a belíssima Lídia Pereira de Souza. Uma formosa morena de traços perfeitos e sedutores e curvas delineadamente sensuais.
            Lídia Pereira de Souza viria um dia a se tornar a bela cangaceira Lídia, de Zé Baiano.
            Lídia era filha do modesto casal Luís Pereira de Souza e Maria Rosa Figueiredo, conhecida pela alcunha de Dona Baló, uma exímia rendeira e costureira.
            O Salgadinho por ser um dos lugares percorridos pelo Rei do Cangaço e seus seguidores, na época em que as andanças do capitão Virgolino atingiu seu apogeu em terras baianas, me foi bastante informativo enquanto eu realizava pesquisas para o livro: Lampião em Paulo Afonso. Por dezenas de vezes estive naquela localidade, registrando as histórias contadas pelos velhos remanescentes da luta cangaceira e neste período, uma das coisas que mais despertou minha atenção foi conhecer a casa onde nasceu a bela cangaceira Lídia, de Zé Baiano. Contra todas as possibilidades e intempéries, a casa teimava em continuar erguida, mesmo estando assombrosamente carcomida pelos cupins, resistia imponente e enigmática.
            Muitos estudiosos do tema cangaço estiveram comigo visitando a velha moradia da mais linda das cangaceiras. Em uma das minhas últimas visitas fui lá sozinho e sem pressa pude apreciar cada canto, cada forma e cada fresta do velho casebre. Em um dos quartos, por uma das rachaduras da parede, divisei, entre centenas de casas de marimbondos, um antigo baú e dividindo o frestal com os morcegos, estava uma velha lamparina. Como é que tinha passado despercebido por tantas vezes estes velhos objetos? Enquanto no meu silêncio apreciava aquelas relíquias, senti a presença de alguém que se aproximava e despertei com a voz de uma senhora que me trazia a realidade: era dona Nilda, sobrinha da cangaceira Lídia. Nilda é a guardiã da velha casa. Conversamos por alguns minutos e com o consentimento de dona Nilda, acertamos de resgatar todo o material existente naquele cubículo, onde me caberia algumas peças, tarefa não tão fácil, pela dificuldade de transpor a barreira de centenas de vespas com seus ardentes e venenosos ferrões.
            Em Paulo Afonso me preparei adquirindo equipamentos de proteção para usar e que pudessem me proteger no resgate do tesouro de dona Baló. No dia 15 de maio de 2005, uma manhã de domingo de nuvens negras e ameaçadoras, embarquei com o velho amigo Ivan Caetano, um aposentado mecânico de aeronaves e que durante muito tempo dedicou sua especializada mão-de-obra ao setor de aviação da CHESF. Seguimos viagem, eu, Ivan e sua esposa Leonídia, na boleia da antiga e inseparável "TRUBANA", uma F -1000, vermelha, que Ivan possui há muito tempo.
            No segundo percurso, de aproximadamente 12 quilômetros, sendo a maior parte em estrada de chão, podemos observar os estragos feitos pela chuva que há dias castigava este pedaço de chão. Aos solavancos e pelas mãos firmes do estimado amigo, chegamos ao povoado Salgadinho. Descemos entre poças de lamas e riachos de águas correntes, bem na frente da casa da cangaceira Lídia e lateral às casas de dona Nilda e Sinhozinho. O verdadeiro nome de Sinhozinho é José Luís Pereira e é o único irmão vivo da cangaceira.
            Por alguns minutos conversamos com dona Nilda e depois seguimos na direção da casa de Sinhozinho, onde pudemos saborear uma docíssima melancia, sob a fresca aragem de um frondoso umbuzeiro. Depois da melancia, nos preparamos para a árdua tarefa. Coloquei o apropriado macacão, botas, luvas e um chapéu com uma rede de nylon.
            Seguimos, eu e o Ivan, até a parte traseira da casa, local que dava um melhor acesso para entrarmos no quarto, onde se encontrava o baú e a lamparina. O Ivan se encarregava de encher dois vasilhames com querosene e eu saía alvejando o mortífero líquido nas casas das ariscas vespas, que aos montes atacavam tentando ferroar-me, sem sucesso.
            Enquanto centenas de maribondos voavam desnorteados, eu vasculhava os recantos semiescuros daquele pavimento. Na verdade, lá dentro, existiam três baús. Um deles, o mais bonito de todos, mesmo sendo recoberto por couro, desintegrou-se quando eu o toquei, tentando arrastá-lo para fora e, de dentro do baú, saíram centenas de abelhas pretas que em vão tentavam picar-me para protegerem uma já esfarelada colmeia. Peguei o baú que se encontrava em perfeito estado e dentro encontrei algumas velhas e carcomidas peças de roupa, carretéis de linhas, velhas notas de dinheiro, valendo um, dois, dez, vinte e cinquenta cruzeiros. Deixei o perfeito baú aos cuidados do amigo Ivan e retornei para vasculhar a velha armação de um desintegrado caixote. No meio das tábuas mofadas e da areia, encontrei coisas mais interessantes, tais como: duas grandes moedas do tempo do Império, datadas de 1831 e que trazem estampadas o numeral 40, dois tinteiros de nanquim, dois punhais, sendo um de 0,35 centímetro e um menor e mais belo, medindo 0,23/2 centímetros trazendo na folha de aço, o nome FAVORITA KOCK e C° KOLM, ST e C, uma mecha de cabelos presa por uma trabalhada peça de ouro, um chicote de couro, um canivete, dois vidros antigos de perfume, duas esporas, uma casca de bala com as iniciais FEAG e datada de 1921, vários botões de tamanhos variados, um dedal, 04 chaves de portas, várias fivelas, um pequeno recipiente de alumínio feito para guardar agulhas, uma peça para perfurar couro, vários carretéis de madeira (escrito em alguns: LINHA BISPO, GLACÊ E ÔLHO), uma almotolia para lubrificar máquina, dois fusos, um vazador de fabricação artesanal, uma moeda de 100 réis, datada de 1928.
            Das paredes de taipa resgatei a velha lamparina e algumas imagens de santos, estas acabaram ficando com Sinhozinho. Esse era o tesouro de dona Baló, mãe de cangaceira Lídia. Dentro de três velhos baús, peças da época do cangaço se misturavam com outras coisas mais recentes e acabaram despertando o meu lado garimpeiro das coisas do passado.
            Saímos do povoado Salgadinho, já com o horário do almoço ultrapassado e sem que antes saboreássemos outra melancia, oferecida desta vez, pelas mãos de dona Nilda.
            No horizonte, negras nuvens caminhavam cercando o antigo povoado. Despedimos-nos e retornamos dando uma parada no povoado Açude, mais precisamente no bar do Bilinho, onde comemos uma deliciosa galinha de capoeira e o tradicional bode assado.
            O verdadeiro tesouro que encontrei naquela nublada manhã de domingo, estava no doce sabor da melancia, nas pisadas nos riachos de águas correntes, nos esporádicos pingos de chuva que nos encharcavam e na alegria do sorriso do meu querido casal de amigos.


                                                                         


João de Sousa Lima
(Escritor e historiador)
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Paulo Afonso
Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso
Membro do GECC- Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará







quinta-feira, 4 de setembro de 2014

EU E DULCE: A ÚLTIMA GUERREIRA DO CANGAÇO.

Edson, Dulce, João S. Lima e Ciça

     EU E DULCE: A ÚLTIMA GUERREIRA DO CANGAÇO.

     Em 2003 imprimi a 1ª edição do livro Lampião em Paulo Afonso e fui convidado pelo escritor Antônio Amaury para lança-lo em São Paulo, em um evento que sempre acontecia na estação do Braz, com o título: O AUTOR NA PRAÇA.  Amaury aproveitou minha ida a SAMPA e me apresentou aos irmãos “MANO VEIO E MANO NOVO”. Dois irmãos que tem um famoso programa de rádio destinado aos nordestinos.
Lançamos com sucesso os livros na companhia de mais alguns escritores da região.
No dia seguinte pedi pra Amaury me levar em uma feira de antiguidades e no domingo nos dirigimos ao MASP- Museu de Artes de São Paulo, onde acontece uma famosa feira de Antiguidades. Ao nos aproximarmos da feira, a primeira pessoa que Amaury foi vendo foi o senhor “Acir” e me disse:
 - João, esse rapaz, o Acir, é filho da cangaceira Dulce!
 - Vamos lá falar com ele!
Amaury me apresentou o rapaz e conversamos por alguns minutos, depois o presenteei com um exemplar do meu livro e ele disse que só não me levaria pra conhecer a mãe dele porque ela residia em Campinas e estava doente no momento, deixando claro que a única coisa que eu conseguiria era apenas ser fotografado ao lado dela, pois ela não dava entrevistas e lembrou ainda que Amaury a conhecia há vários anos e mesmo tendo essa amizade e mantendo contatos com a cangaceira ela nunca cedeu entrevista a Amaury. Eu falei que entendia a postura e o direito dela manter o silêncio sobre seu passado.
Passei mais alguns dias com Amaury e retornei a Paulo Afonso, pois as férias estavam acabando e precisava retornar ao trabalho. Na época eu trabalhava como gerente de abastecimentos de aeronaves no aeroporto local.
Um dos vigilantes do aeroporto chamado Eraldo, sempre me dizia que sua avó  tinha sido cangaceira e como ele era muito brincalhão eu fui levando a conversa sem dar muita atenção. Certo dia passando em uma rua tive a atenção despertada por Eraldo que acenou pra que eu parasse minha moto. Eraldo foi logo dizendo:
 - Venha conhecer minha  avó que foi do cangaço!
Estacionei e fui ouvir essa história. Uma simpática senhora, já passando dos 90 anos de idade, saiu do seu quarto e veio falar comigo. Eu perguntei se era verdade que ela tinha sido cangaceira e ela respondeu:
 - Não meu filho, isso é conversa do Eraldo, minha irmã é que foi cangaceira mais ela morreu no cangaço!
 - E qual o nome de sua irmã?
 - Dulce!
 - Dulce? Dulce de Criança?
 - Essa mesmo!
 - Mais a Dulce tá viva!
- É mentira! Dulce morreu em Angicos!
- Não! Quem morreu em Angicos foi Maria Bonita e Enedina!
Nesse momento lembrei-me do Acir e contei a história que tinha conhecido o filho da Dulce e por mais que eu afirmasse as histórias sobre a cangaceira, dona Maria “Cícera” dizia não acreditar. Vasculhei em minha carteira o telefone do Acir e quando encontrei pedi pra utilizar o telefone dela pra comprovar o que estava dizendo.
Liguei e fui atendido de imediato pelo Acir. Quando falei quer era o escritor de João de Sousa Lima, o Acir foi muito receptivo e alegremente comentou dizendo que tinha lido meu livro e que tinha gostado muito das histórias. Eu o ouvi atentamente esperando a oportunidade de falar sobre o real motivo de minha ligação. Quando enfim ele perguntou por que eu estava ligando eu disse que estava na casa de uma senhora que afirmava ser irmã de sua mãe Dulce. Houve um breve silêncio e depois Acir comentou:
- Pelo amor de Deus João, minha mãe procura uma irmã a mais de 60 anos, me deixa falar com ela pra ver se é ela mesma!
Passei o telefone pra Maria Cícera e fiquei na expectativa sobre a conclusão da conversa. De repente Cícera chorou, desligou o telefone, sentou e com um grande sorriso de contentamento falou:
- Minha irmã tá viva!
Ficamos alguns minutos observando a felicidade daquela senhora, participando de sua alegria.
Dias depois recebo uma ligação. Dulce estava em Paulo Afonso e queria me conhecer.
Ela e o filho Acir vieram no voo da BRA, que fazia São Paulo/ Paulo Afonso duas vezes por semana.
Dia seguinte, dentro do horário marcado, segui até a casa de Cícera, que morava com sua filha Dil. Quando cheguei vi várias pessoas na sala e me aproximei. Apresentei-me e Dulce, conversamos muitos minutos e pude observar sua capacidade intelectual, mulher inteligente, com um misto de dureza na face e ao mesmo tempo de doçura na alma. Tempos depois ela  falou:
- Eu tenho uma grande dívida com você. Você me proporcionou o momento mais feliz de minha vida, tendo encontrado essa minha irmã. Meu filho aqui presente sabe que não dou entrevista pra homem nenhum, mas vou abrir uma exceção pra você, pois fiquei sabendo que você escreve livros sobre o cangaço e precisa saber um pouco de minha passagem por esse momento que não gosto de falar! Você quer fazer como?
- Quero filmar!
- Quanto tempo?
- Três horas!
- Três horas não, serão duas horas!
- Certo!
- Venha amanhã dez horas da manhã e conversaremos. Só que você não poderá me fazer duas perguntas que eu sei que você sabe sobre minha vida, pois se fizer eu encerro a entrevista. 
- uma das coisas eu sei e não te perguntarei. O outro assunto eu não sei do que se trata e se por acaso eu te fizer alguma pergunta sobre isso a senhora não responde!
- Combinado! Aguardo você amanhã!
Dia seguinte, eu e o pesquisador e cinegrafista Petrúcio nos dirigimos ao encontro marcado.
Dulce nos recebeu sorridente, conversamos um pouco e fomos até o muro, lugar onde uma frondosa árvore dava sombra e reinava um silêncio propício para não atrapalhar a filmagem.
Petrúcio colocou a filmadora em um tripé, eu me acomodei entre as duas irmãs, Cícera e Dulce, a entrevista começou. Durante duas horas as mulheres foram falando do sofrimento. Da dor de Dulce ter deixado a casa de seus pais, a força, levada por seu cunhado, pra ser trocada por ouro.
O tempo passou rápido. Finalizamos a entrevista e antes de sairmos, Dulce me agradeceu por aquele momento e disse:
- Você só poderá lançar essa entrevista depois que eu morrer! Posso confiar?
- Pode!
Dia seguinte, eu com minha família e o amigo-irmão Edson Barreto fomos visitar Dulce. De lá fomos todos almoçar em um restaurante no centro da cidade. Conversamos por muito tempo e ali eu pude entender o porquê do silêncio daquela misteriosa e ao mesmo tempo tão doce mulher. Suas dores  tão profundas de ter enfrentado um mundo tão hostil, sendo ainda tão criança. Pude compreender sua fé inabalável no Cristo que rege seus passos. Conheci os caminhos que a fizeram sábia. Entendi que suas feridas cicatrizaram na compreensão do silêncio que outros não entenderam. Dulce é tão pura-bela-sábia que é difícil não se emocionar mesmo ela permanecendo em seu silêncio.
Quando hoje só resta Dulce nos registros dos ex-cangaceiros, sendo a última pessoa a vergar sobre seu corpo as vestimentas do cangaço, eu afirmo que dentre muitas histórias que vivi nesse vasto mundo cangaceirístico, essa foi uma das histórias que mais marcas deixaram no íntimo de minha inquieta alma.
Fico feliz de tê-la conhecido e de em certo momento ter feito parte de sua alegria, mesmo ouvindo e compreendendo suas dores e tristezas de um passado ainda tão latente, tão presente nos sonhos de uma criança que correu caatinga à dentro, trocando seus mais puros desejos infantis pela dura concepção da realidade dura do aço e do ferro em brasa de armas que embalaram lutas ferrenhas no mais inóspito terreno do nordeste do meu Brasil.


João de Sousa Lima
Historiador e Escritor
Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso
Membro do GECC – Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará
Membro da IGH- Instituto Geográfico e Histórico de Paulo Afonso
Membro da SBEC – Sociedade Brasileira de estudos do cangaço

Paulo Afonso, 02 de setembro de 2014.
Ciça, João Lima e Dulce

Dulce, Dil, Maria Ciça e João

Família de Dulce em Paulo Afonso

Petrúcio com Dulce, Dil e Ciça


Dulce com minhas filhas Letícia e Stéfany

Dulce com minha família

cangaceira Dulce em rara fotografia

Dulce como cangaceira